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Artigo · Tendências

O que eu sei sobre desenvolver vai além do código que escrevo

Com a IA escrevendo o código, minha experiência como desenvolvedor passa a se concentrar em entender os problemas, orientar a construção e avaliar se a solução entregue faz sentido para quem vai usá-la.

Depois de tanto tempo desenvolvendo, é curioso ver uma ferramenta produzir código a partir de uma conversa. Uma atividade com a qual construí tanta familiaridade pode começar com uma descrição do que preciso e continuar com uma implementação pronta para avaliar.

Isso me faz pensar no que aprendi durante esses anos. Quanto desse conhecimento está em escrever o código? E quanto está nas decisões que tomo antes de começar, nas perguntas que faço e nos problemas que consigo antecipar?

Quando penso no desenvolvimento de um sistema, vejo muita coisa que acontece antes da implementação. Entender uma solicitação, descobrir qual dificuldade ela tenta resolver, perceber o que já existe e avaliar onde uma mudança pode interferir.

Com a experiência, algumas dessas decisões ficam tão familiares que quase deixam de parecer decisões.

Você olha para uma solução e sente que alguma coisa precisa ser revista. Talvez ela complique uma rotina simples, repita uma regra que já existe ou resolva o caso apresentado deixando uma situação importante de fora. Esse olhar tem uma história. Vem de coisas que você construiu, corrigiu e precisou acompanhar funcionando na prática.

É nessa capacidade de avaliar e dar direção que vejo o valor da minha experiência hoje.

Penso, por exemplo, em pedir uma função para gerar um pedido. A descrição parece simples até começarem as perguntas: quem pode executar essa ação? O que acontece se a pessoa clicar duas vezes? Como ela descobre que deu certo? Se houver uma falha no meio, o que fica salvo?

São perguntas sobre o funcionamento da solução e suas consequências. Elas precisam ser respondidas mesmo quando a implementação inteira é feita pela IA.

Ao orientar uma ferramenta, preciso explicar coisas que antes talvez ficassem apenas no meu raciocínio. Preciso organizar o contexto, dizer quais restrições importam e reconhecer o que ainda está mal definido.

Isso também pode revelar lacunas no meu próprio entendimento. Se tenho dificuldade para explicar o comportamento esperado, vale investigar melhor o problema antes de seguir. Receber uma implementação rapidamente pode dar uma sensação de avanço mesmo quando algumas decisões continuam em aberto.

A validação exige atenção semelhante. Preciso verificar se as regras foram respeitadas, se as informações estão corretas e se a pessoa consegue realizar a tarefa. Uma solução também precisa se comportar bem quando faltam dados, quando uma operação falha ou quando alguém faz algo diferente do caminho que imaginei.

Na forma como quero trabalhar, escrever e conhecer cada detalhe do código deixa de ser o centro da minha contribuição. Quero concentrar meu esforço em compreender o negócio, definir o comportamento esperado e ter critérios para aceitar ou recusar o que foi entregue.

Isso muda também o que preciso aprender. Explicar melhor uma necessidade, desenhar uma experiência de uso e avaliar segurança, desempenho e impacto na operação passam a ocupar mais espaço.

Ainda estou me adaptando a essa mudança. Depois de tantos anos acostumado a transformar uma ideia em código, preciso aprender a reconhecer meu trabalho nas decisões que orientam a construção.

Quero conseguir olhar para uma entrega e explicar por que ela resolve o problema, quais situações foram consideradas e o que ainda precisa melhorar. É nessa capacidade de conduzir o desenvolvimento que quero continuar evoluindo.

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