Quando recebo um texto para ilustrar, eu não começo imediatamente a desenhar. Primeiro, eu leio o texto. Depois, eu imprimo. Depois eu leio de novo... e de novo. E ao longo do processo, vou consultando, lendo e relendo trechos.

Muita gente acha que o ilustrador só desenha, e não tem que planejar. Que o desenho sai da mão como num passe de mágica. Que é só 'talento'.
Mas antes de existir uma ilustração pronta, existe uma quantidade enorme de trabalho que ninguém vê: leitura, pesquisa, anotações, decisões, personagens que mudam, rafes/esboços que nem sempre funcionam, páginas que precisam ser reorganizadas.
A pintura final é a parte mais visível, mas o que vem antes também leva tempo. Criar e conceber ideias é algo que demora, mas acaba compensando.
Claro que, antes de tudo isso, há as questões práticas: orçamento, prazo, número de páginas, formato do livro, quantidade de ilustrações e uso que será feito delas. Tudo isso interfere no trabalho também, mas não vou falar dessa parte hoje.
Então, criativamente, para mim, o processo começa ainda no texto.
Uma vez, me fizeram a seguinte pergunta em uma oficina:
“Mas você lê o texto antes de ilustrar?”
E eu respondi, meio surpresa: "Com certeza! Como eu poderia ilustrar alguma coisa sem saber do que se trata?"
E explico:
Vamos supor que o texto diga que a personagem tem cabelos ruivos. Como eu vou saber se não ler antes? E se ela tiver cabelos ondulados e eu fizer com cabelos lisos?
Mas, pensando bem, talvez eu devesse ter respondido de outra maneira, com por exemplo:
"Sim, e não basta ler o texto só uma vez, porque é preciso captar também o que se diz nas entrelinhas."
Já aconteceu de, em alguns livros, eu ler tanto que acabei decorando trechos. E, como durante semanas eu comento o texto, falo dos personagens, das cenas e dos problemas que estou tentando resolver, às vezes até meus familiares terminam sabendo tudo sobre a história também.:)
E sabe o que é mais curioso? A cada releitura eu percebo alguma coisa nova. Não é incrível?
. O que exatamente aquele personagem está sentindo?
. O que aconteceu antes daquela cena?
. Quanto tempo passou?
. O que o texto diz claramente e o que apenas sugere?
. Qual é o clima daquele momento? O que pode estar acontecendo fora da frase escrita?
E também penso, muito mesmo, no leitor.
. O que ele vai sentir quando chegar naquela página?
. O que a imagem pode acrescentar?
. O que eu posso contar sem simplesmente repetir aquilo que o texto já contou?
Porque, para mim, esse é um dos pontos mais interessantes da ilustração. Temos que pensar “para quem” estamos fazendo as ilustrações.
Se o texto diz que uma menina está com medo, eu não preciso necessariamente desenhar uma menina “com cara de medo”.
Talvez o medo esteja no tamanho do espaço vazio em volta dela, na distância entre os personagens, na posição deles, numa sombra, num gesto, numa composição que afasta.
E eu penso muito no que a criança faria. Como ela iria reagir? O que ela faria numa situação dessas?
E, confesso, essa é a parte mais divertida! Porque crianças dizem e fazem coisas muito divertidas. E, sempre que posso, tento incorporar isso às minhas ilustrações.
A imagem pode (e em alguns casos, deveria) contar aquilo que o texto às vezes deixou em silêncio.
O texto vai virando um guia
Enquanto leio, faço também anotações: características dos personagens, lugares, objetos importantes, sentimentos, mudanças de tempo, relações entre uma cena e outra. Isso é trabalhoso, mas ajuda muito.
Se um personagem aparece várias vezes no livro, ele precisa continuar sendo o mesmo personagem. A roupa do personagem raramente muda nos livros infantis. Então, é preciso manter a consistência. Às vezes, eu até anoto as cores e combinações.
É importante sempre verificar se o cabelo está igual, se o ambiente é o mesmo, se o tempo passou, se a estação do ano mudou, se algum objeto precisa reaparecer depois…
O livro não é uma coleção de imagens isoladas, mas uma sequência, e cada imagem precisa conversar com a anterior e com a próxima.
Pesquisar é essencial e também faz parte do trabalho do ilustrador
Enquanto eu faço a leitura, já começo a pesquisar. Dependendo do livro, posso pesquisar época histórica, roupas, arquitetura, hábitos, vegetação, objetos, animais, cores, ambientes.
Ainda lembro de um livro que minha filha ganhou quando era pequena em que havia um coco numa bananeira. Essas coisas ficam na memória e mostram como um detalhe aparentemente pequeno pode quebrar completamente a credibilidade de uma imagem.
Quando desenho animais, por exemplo, observo anatomia, proporções, movimentos, cores e variações. Isso não significa que depois eu vá desenhar de forma hiper-realista, mas conhecer o que é real me permite transformar de modo intencional.
Também procuro referências visuais não apenas para descobrir como alguma coisa é, mas para perceber como aquilo já foi representado antes, pois isso ajuda a evitar soluções muito óbvias e repetições.
Os personagens começam a aparecer
Durante esse processo, os personagens também começam a surgir. Faço pequenos esboços, vou testando proporções, roupas, expressões, gestos, maneiras de se movimentar.
Isso não quer dizer que eu consiga fazer tudo de imediato. Alguns personagens já vem definidos pelo autor, ou ele insere as características deles no texto. Mas outros, nós é que temos que inventar.
Então, a leitura, a pesquisa, o personagem, a composição e a narrativa vão acontecendo juntas. E, às vezes, uma descoberta muda algo e temos que reavaliar e retrabalhar.
Vou confessar: já me aconteceu de esboçar a menina de sapatos e depois descobrir, relendo o texto, que a autora falava dos pés descalços. Tive que mudar e me perguntei: como é que não prestei atenção nisso antes? Acredita? Vacilei. Mas acontece e corrigi.
Depois, o texto vai começando a virar livro
Desde o início, eu já começo a pensar na história como “livro”.
Ao ler o texto, já vou separando o texto pelas páginas.
E aí tem que planejar:
Folha de rosto
Créditos
Há dedicatória?
Quantas páginas realmente terei para contar visualmente aquela história?
Depois começo a pensar no ritmo: que cena merece uma página inteira? Onde uma vinheta funciona melhor? Onde é importante criar uma pausa e o que acontece antes e depois da virada de página? Surpresa ou suspense?
Para mim, essa divisão já faz parte da narrativa visual. Afinal, nem toda criança já é alfabetizada ao “ler” o livro. E construir as imagens pensando nisso é essencial.
Então, ilustrar não começa só quando eu pego o lápis, mas quando eu faço escolhas e decido o que mostrar, quando mostrar e o quanto mostrar. Nem sempre é preciso ilustrar tudo.
É como sempre digo: ilustrar é como fazer um filme.
A boneca do livro
Antigamente, eu fazia uma espécie de boneca física do livro. Imprimia o texto, recortava os trechos, colava nas páginas, fazia anotações e até pequenos desenhos.
Era bastante artesanal, mas funcionava super bem para mim.
Hoje, já faço isso de modo digital, pois assim consigo perceber melhor a sequência, a relação entre as páginas e o equilíbrio do conjunto, além de verificar se a página dupla está funcionando lado a lado e se não estou esquecendo nenhuma parte. Isso também me ajuda a evitar ilustrações a mais ou a menos, a planejar melhor o espaço que tenho e a não esquecer do espaço necessário para o texto.
Então, crio um arquivo com as páginas do livro, distribuo o texto e vou inserindo os rafes, que são os primeiros esboços de composição.
É normalmente esse arquivo que envio para a editora para aprovação. Isso ajuda o editor a visualizar o que pretendo fazer, solicitar alterações sem que eu tenha muito retrabalho, compreender não apenas cada ilustração, mas o livro inteiro como sequência e o que estou pensando como narrativa.
Também facilita o trabalho do diagramador, porque mostra a relação entre texto, imagem e página, e ele não precisa adivinhar onde vai cada ilustração.
Concluindo
Antes de uma imagem existir, teve leitura, pesquisa, tentativa, erro, mudança, descarte, decisão, e essa é a parte que menos aparece quando alguém vê uma ilustração pronta.
Já aconteceu de páginas não funcionarem, personagens que mudaram, composições que precisei refazer, ideias que pareciam ótimas, mas que no papel ficaram sem graça. Esboços e ilustrações que não foram parar nas páginas dos livros, mas ficaram na gaveta, infelizmente, ou que acabaram sendo descartadas.
Em um livro que fiz, uma ilustração acabou não sendo inserida, pois faltou espaço. Fiquei bem triste, mas, devido à diagramação e ao posicionamento do texto, ficaria muito apertado. Triste, mas faz parte do trabalho.
Há outros modos de ilustrar um livro, mas esse é o processo que fui desenvolvendo ao longo dos anos e que continuo adaptando a cada novo livro.
Se tem algo que me fascina nesse trabalho, é que nunca é entediante. Cada projeto apresenta um problema diferente e exige uma atitude não somente criativa, mas de planejamento. Mas… talvez seja exatamente por isso que esse trabalho seja tão interessante e, por que não dizer, encantador.:)