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<rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><channel><title>Por dentro do Studio Ingrid</title><link>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack</link><description>Artigos e notas de Por dentro do Studio Ingrid.</description><language>pt-BR</language>
<item><title>Como eu ilustro um livro infantil</title><link>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/a/como-eu-ilustro-um-livro-infantil-do-texto-aos-primeiros-desenhos</link><guid>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/a/como-eu-ilustro-um-livro-infantil-do-texto-aos-primeiros-desenhos</guid><pubDate>Thu, 17 Sep 2026 13:41:00 GMT</pubDate><description>Ilustrar um livro é muito mais do que desenhar: envolve planejamento, narrativa e escolhas visuais.</description><content:encoded><![CDATA[<p>Quando recebo um texto para ilustrar, eu não começo imediatamente a desenhar. Primeiro, eu leio o texto. Depois, eu imprimo. Depois eu leio de novo... e de novo. E ao longo do processo, vou consultando, lendo e relendo trechos.</p>
<figure class="jr-fig a-centro"><img style="width:100%;display:block" src="/media/ab91e9f488f8fcbf2da7.webp" alt=""></figure>
<p>Muita gente acha que o ilustrador só desenha, e não tem que planejar. Que o desenho sai da mão como num passe de mágica. Que é só 'talento'.</p>
<p>Mas antes de existir uma ilustração pronta, existe uma quantidade enorme de trabalho que ninguém vê: leitura, pesquisa, anotações, decisões, personagens que mudam, rafes/esboços que nem sempre funcionam, páginas que precisam ser reorganizadas.</p>
<p>A pintura final é a parte mais visível, mas o que vem antes também leva tempo. Criar e conceber ideias é algo que demora, mas acaba compensando.</p>
<p>Claro que, antes de tudo isso, há as questões práticas: orçamento, prazo, número de páginas, formato do livro, quantidade de ilustrações e uso que será feito delas. Tudo isso interfere no trabalho também, mas não vou falar dessa parte hoje.</p>
<p>Então, criativamente, para mim, o processo começa ainda no texto.</p>
<p>Uma vez, me fizeram a seguinte pergunta em uma oficina:</p>
<p><em>“Mas você lê o texto antes de ilustrar?”</em></p>
<p>E eu respondi, meio surpresa: &quot;Com certeza! Como eu poderia ilustrar alguma coisa sem saber do que se trata?&quot;</p>
<p>E explico:</p>
<p>Vamos supor que o texto diga que a personagem tem cabelos ruivos. Como eu vou saber se não ler antes? E se ela tiver cabelos ondulados e eu fizer com cabelos lisos?</p>
<p>Mas, pensando bem, talvez eu devesse ter respondido de outra maneira, com por exemplo:</p>
<p>&quot;Sim, e não basta ler o texto só uma vez, porque é preciso captar também o que se diz nas entrelinhas.&quot;</p>
<p>Já aconteceu de, em alguns livros, eu ler tanto que acabei decorando trechos. E, como durante semanas eu comento o texto, falo dos personagens, das cenas e dos problemas que estou tentando resolver, às vezes até meus familiares terminam sabendo tudo sobre a história também.:)</p>
<p>E sabe o que é mais curioso? A cada releitura eu percebo alguma coisa nova. Não é incrível?</p>
<p>. O que exatamente aquele personagem está sentindo?</p>
<p>. O que aconteceu antes daquela cena?</p>
<p>. Quanto tempo passou?</p>
<p>. O que o texto diz claramente e o que apenas sugere?</p>
<p>. Qual é o clima daquele momento? O que pode estar acontecendo fora da frase escrita?</p>
<p>E também penso, muito mesmo, no leitor.</p>
<p>. O que ele vai sentir quando chegar naquela página?</p>
<p>. O que a imagem pode acrescentar?</p>
<p>. O que eu posso contar sem simplesmente repetir aquilo que o texto já contou?</p>
<p>Porque, para mim, esse é um dos pontos mais interessantes da ilustração. Temos que pensar “para quem” estamos fazendo as ilustrações.</p>
<p>Se o texto diz que uma menina está com medo, eu não preciso necessariamente desenhar uma menina “com cara de medo”.</p>
<p>Talvez o medo esteja no tamanho do espaço vazio em volta dela, na distância entre os personagens, na posição deles, numa sombra, num gesto, numa composição que afasta.</p>
<p>E eu penso muito no que a criança faria. Como ela iria reagir? O que ela faria numa situação dessas?</p>
<p>E, confesso, essa é a parte mais divertida! Porque crianças dizem e fazem coisas muito divertidas. E, sempre que posso, tento incorporar isso às minhas ilustrações.</p>
<p>A imagem pode (e em alguns casos, deveria) contar aquilo que o texto às vezes deixou em silêncio.</p>
<p><strong>O texto vai virando um guia</strong></p>
<p>Enquanto leio, faço também anotações: características dos personagens, lugares, objetos importantes, sentimentos, mudanças de tempo, relações entre uma cena e outra. Isso é trabalhoso, mas ajuda muito.</p>
<p>Se um personagem aparece várias vezes no livro, ele precisa continuar sendo o mesmo personagem. A roupa do personagem raramente muda nos livros infantis. Então, é preciso manter a consistência. Às vezes, eu até anoto as cores e combinações.</p>
<p>É importante sempre verificar se o cabelo está igual, se o ambiente é o mesmo, se o tempo passou, se a estação do ano mudou, se algum objeto precisa reaparecer depois…</p>
<p>O livro não é uma coleção de imagens isoladas, mas uma sequência, e cada imagem precisa conversar com a anterior e com a próxima.</p>
<p><strong>Pesquisar é essencial e também faz parte do trabalho do ilustrador</strong></p>
<p>Enquanto eu faço a leitura, já começo a pesquisar. Dependendo do livro, posso pesquisar época histórica, roupas, arquitetura, hábitos, vegetação, objetos, animais, cores, ambientes.</p>
<p>Ainda lembro de um livro que minha filha ganhou quando era pequena em que havia um coco numa bananeira. Essas coisas ficam na memória e mostram como um detalhe aparentemente pequeno pode quebrar completamente a credibilidade de uma imagem.</p>
<p>Quando desenho animais, por exemplo, observo anatomia, proporções, movimentos, cores e variações. Isso não significa que depois eu vá desenhar de forma hiper-realista, mas conhecer o que é real me permite transformar de modo intencional.</p>
<p>Também procuro referências visuais não apenas para descobrir como alguma coisa é, mas para perceber como aquilo já foi representado antes, pois isso ajuda a evitar soluções muito óbvias e repetições.</p>
<p><strong>Os personagens começam a aparecer</strong></p>
<p>Durante esse processo, os personagens também começam a surgir. Faço pequenos esboços, vou testando proporções, roupas, expressões, gestos, maneiras de se movimentar.</p>
<p>Isso não quer dizer que eu consiga fazer tudo de imediato. Alguns personagens já vem definidos pelo autor, ou ele insere as características deles no texto. Mas outros, nós é que temos que inventar.</p>
<p>Então, a leitura, a pesquisa, o personagem, a composição e a narrativa vão acontecendo juntas. E, às vezes, uma descoberta muda algo e temos que reavaliar e retrabalhar.</p>
<p>Vou confessar: já me aconteceu de esboçar a menina de sapatos e depois descobrir, relendo o texto, que a autora falava dos pés descalços. Tive que mudar e me perguntei: como é que não prestei atenção nisso antes? Acredita? Vacilei. Mas acontece e corrigi.</p>
<p><strong>Depois, o texto vai começando a virar livro</strong></p>
<p>Desde o início, eu já começo a pensar na história como “livro”.</p>
<p>Ao ler o texto, já vou separando o texto pelas páginas.</p>
<p>E aí tem que planejar:</p>
<p>Folha de rosto</p>
<p>Créditos</p>
<p>Há dedicatória?</p>
<p>Quantas páginas realmente terei para contar visualmente aquela história?</p>
<p>Depois começo a pensar no ritmo: que cena merece uma página inteira? Onde uma vinheta funciona melhor? Onde é importante criar uma pausa e o que acontece antes e depois da virada de página? Surpresa ou suspense?</p>
<p>Para mim, essa divisão já faz parte da narrativa visual. Afinal, nem toda criança já é alfabetizada ao “ler” o livro. E construir as imagens pensando nisso é essencial.</p>
<p>Então, ilustrar não começa só quando eu pego o lápis, mas quando eu faço escolhas e decido o que mostrar, quando mostrar e o quanto mostrar. Nem sempre é preciso ilustrar tudo.</p>
<p><strong>É como sempre digo: ilustrar é como fazer um filme.</strong></p>
<p><strong>A boneca do livro</strong></p>
<p>Antigamente, eu fazia uma espécie de boneca física do livro. Imprimia o texto, recortava os trechos, colava nas páginas, fazia anotações e até pequenos desenhos.</p>
<p>Era bastante artesanal, mas funcionava super bem para mim.</p>
<p>Hoje, já faço isso de modo digital, pois assim consigo perceber melhor a sequência, a relação entre as páginas e o equilíbrio do conjunto, além de verificar se a página dupla está funcionando lado a lado e se não estou esquecendo nenhuma parte. Isso também me ajuda a evitar ilustrações a mais ou a menos, a planejar melhor o espaço que tenho e a não esquecer do espaço necessário para o texto.</p>
<p>Então, crio um arquivo com as páginas do livro, distribuo o texto e vou inserindo os rafes, que são os primeiros esboços de composição.</p>
<p>É normalmente esse arquivo que envio para a editora para aprovação. Isso ajuda o editor a visualizar o que pretendo fazer, solicitar alterações sem que eu tenha muito retrabalho, compreender não apenas cada ilustração, mas o livro inteiro como sequência e o que estou pensando como narrativa.</p>
<p>Também facilita o trabalho do diagramador, porque mostra a relação entre texto, imagem e página, e ele não precisa adivinhar onde vai cada ilustração.</p>
<p><strong>Concluindo</strong></p>
<p>Antes de uma imagem existir, teve leitura, pesquisa, tentativa, erro, mudança, descarte, decisão, e essa é a parte que menos aparece quando alguém vê uma ilustração pronta.</p>
<p>Já aconteceu de páginas não funcionarem, personagens que mudaram, composições que precisei refazer, ideias que pareciam ótimas, mas que no papel ficaram sem graça. Esboços e ilustrações que não foram parar nas páginas dos livros, mas ficaram na gaveta, infelizmente, ou que acabaram sendo descartadas.</p>
<p>Em um livro que fiz, uma ilustração acabou não sendo inserida, pois faltou espaço. Fiquei bem triste, mas, devido à diagramação e ao posicionamento do texto, ficaria muito apertado. Triste, mas faz parte do trabalho.</p>
<p>Há outros modos de ilustrar um livro, mas esse é o processo que fui desenvolvendo ao longo dos anos e que continuo adaptando a cada novo livro.</p>
<p>Se tem algo que me fascina nesse trabalho, é que nunca é entediante. Cada projeto apresenta um problema diferente e exige uma atitude não somente criativa, mas de planejamento. Mas… talvez seja exatamente por isso que esse trabalho seja tão interessante e, por que não dizer, encantador.:)</p>]]></content:encoded></item>
<item><title>A parte da profissão de ilustrador que ninguém vê</title><link>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/a/a-parte-da-profissao-de-ilustrador-que-ninguem-ve</link><guid>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/a/a-parte-da-profissao-de-ilustrador-que-ninguem-ve</guid><pubDate>Fri, 11 Sep 2026 14:06:58 GMT</pubDate><description>Criar imagens é apenas uma parte do trabalho. Por trás delas existem decisões, contratos, planejamento, pesquisa, aprendizado e uma profissão que continua nos surpreendendo.</description><content:encoded><![CDATA[<figure class="jr-fig a-centro"><img style="width:100%;display:block" src="/media/5761533d23060330262a.webp" alt="Ilustração para o livro &quot;Os 3 Esquilinhos&quot;."><figcaption class="jr-figcap">Ilustração para o livro &quot;Os 3 Esquilinhos&quot;.</figcaption></figure>
<p>Existe uma ideia muito curiosa sobre a profissão de ilustrador. Muita gente imagina a gente desenhando tranquilamente em casa, ouvindo música, tomando café, escolhendo o próprio horário e fazendo aquilo de que gosta. Às vezes, até desenhando na praia.</p>
<p>Embora isso possa acontecer - eu mesma já ilustrei enquanto passava férias na Suécia - nem sempre essa é a regra.</p>
<p>Como não existe um chefe por perto, nem necessariamente um escritório ou um horário convencional, parece uma profissão particularmente livre e tranquila.</p>
<p>Depois de muitos anos trabalhando com ilustração, eu diria que essa imagem representa apenas uma pequena parte da profissão. O restante acontece longe da mesa/prancheta e envolve prazos, contratos, orçamentos, clientes, fornecedores, divulgação, planejamento, impostos, negociações e uma quantidade grande de decisões que quase ninguém vê.</p>
<p>Por isso, há uma expressão que considero bastante adequada: o ilustrador é <strong>uma empresa de uma pessoa só.</strong> Ele não é apenas alguém que sabe desenhar, nem apenas um prestador de serviços. É também autor de imagens, profissional criativo e, muitas vezes, responsável por praticamente tudo o que mantém sua carreira funcionando.</p>
<p>Eu confesso que meu sonho era não ter que me preocupar com nada além de desenhar, mas para termos uma carreira que funciona, algumas coisinhas a mais são necessárias.</p>
<p><strong>Ilustrador não é apenas prestador de serviço</strong></p>
<p>Quando se fala em trabalhar com ilustração, aparece com frequência a ideia de prestação de serviço. Alguém tem um texto, precisa de uma imagem, contrata um ilustrador, recebe o arquivo e o trabalho estaria concluído. E, de fato, existem ilustradores que trabalham assim. E em alguns projetos, além do contrato de autoria, o cliente solicita a nota fiscal.</p>
<p>Essa definição de prestação de serviço, no entanto, me parece <strong>pequena demais</strong> para aquilo que um ilustrador realmente faz.</p>
<p>Enquanto cria uma imagem, ele toma decisões o tempo inteiro. Decide o que mostrar e o que deixar de fora, escolhe o momento da cena, determina a expressão de um personagem, conduz o olhar do leitor, cria uma atmosfera e, muitas vezes, acrescenta informações que nem sequer estavam escritas no texto. <strong>Ele tem que transformar em arte visual aquilo que foi inventado na cabeça de outra pessoa.</strong></p>
<p>É por isso que é correto dizer que <strong>o ilustrador é autor de imagem</strong>. Essa diferença não é apenas uma questão de nomenclatura.</p>
<p>Quando o próprio ilustrador se enxerga somente como alguém que executa desenhos para um cliente, tende a pensar principalmente na execução.</p>
<p>Quando se reconhece como autor, passa a considerar também sua linguagem, seu repertório, suas escolhas, sua identidade e aquilo que está acrescentando à obra.</p>
<p>A relação profissional continua existindo, naturalmente, mas a contribuição criativa passa a ser entendida de outra forma. Curiosamente, quanto mais autoral se torna o nosso trabalho, mais profissional precisa ser a estrutura que existe por trás dele.</p>
<p><strong>A empresa invisível por trás da prancheta</strong></p>
<p>Quando alguém vê uma ilustração pronta, enxerga o resultado. Não vê tudo o que precisou acontecer para que aquela imagem pudesse existir dentro de uma atividade profissional.</p>
<p>Antes mesmo de começar um trabalho, talvez seja necessário preparar um orçamento, calcular prazos, conferir materiais, responder mensagens, conversar com fornecedores, negociar valores, organizar outros projetos, emitir documentos e verificar pagamentos. Muitas dessas tarefas parecem pequenas quando observadas isoladamente, mas juntas ocupam uma parte considerável da semana.</p>
<p>Um fornecedor entrega alguma coisa errada, um cliente solicita uma alteração, um contrato precisa ser analisado, determinado material acabou, aparece uma reunião ou surge uma nova proposta e é necessário descobrir se ela realmente cabe no cronograma. Aos poucos, aquela imagem de alguém passando o dia inteiro desenhando dá lugar a uma realidade muito mais ampla.</p>
<p>Em diferentes momentos, o ilustrador acaba assumindo funções de artista, atendimento, financeiro, planejamento, produção, negociação e marketing. O desafio não está apenas na quantidade de tarefas, mas em impedir que todas elas ocupem tanto espaço que reste pouco tempo justamente para aquilo que sustenta tudo: <strong>a criação</strong>.</p>
<p><strong>Quando divulgar a carreira começa a ocupar a própria carreira</strong></p>
<p>Existe uma contradição curiosa nessa profissão. Para conseguir trabalho, é preciso mostrar o que fazemos. Para mostrar o que fazemos, precisamos reservar tempo para divulgação. No entanto, quando gastamos tempo demais divulgando, começa a faltar tempo justamente para realizar o trabalho que deveria ser divulgado.</p>
<p>Não se trata mais de apenas atualizar seu portfólio de vez em quando. Existem redes sociais, vídeos, sites, newsletters, contatos profissionais, eventos, feiras, propostas e mensagens para responder, além de uma sensação constante de que deveríamos estar aparecendo mais. Eu mesma gostaria de ter mais tempo para postar.</p>
<p>Quando há um livro para entregar, um projeto em andamento ou uma nova imagem para produzir, alguma dessas atividades inevitavelmente precisa perder espaço. <strong>Existe uma armadilha real quando o ilustrador começa a trabalhar tanto para divulgar sua carreira que quase não sobra carreira para divulgar</strong>.</p>
<p>Às vezes, faço a ilustração inteira e esqueço de filmar ou tirar uma foto enquanto pinto. Depois percebo: <em>Puxa! Isso seria material que eu poderia ter utilizado para postar, para divulgar meu trabalho</em>.</p>
<p>Isso acontece direto comigo. Mas então eu penso: meu trabalho é criar imagens para mundos encantados. Se der para filmar, ok. Se não der, posto a imagem no final. E trabalhar com tinta e lápis de cor ajuda muito nisso, porque tem materialidade.</p>
<p>Marketing e divulgação são importantes, mas precisam estar a serviço do trabalho, e não ocupar o lugar dele.</p>
<p><strong>Nem toda oportunidade precisa ser avaliada apenas pelo cachê</strong></p>
<p>Eu sempre digo: não trabalhe de graça. Faça contrato.</p>
<p>Porém, outra coisa que o ilustrador aprende com o tempo é que nem toda oportunidade precisa ser avaliada apenas pelo valor financeiro.</p>
<p>Principalmente no início da carreira, algumas participações e experiências podem ter importância mesmo quando não são remuneradas. Uma feira, uma oficina, uma participação em projeto, uma exposição ou determinado convite podem permitir conhecer pessoas, ampliar repertório, construir portfólio ou simplesmente adquirir experiência profissional.</p>
<p>Isso não significa aceitar qualquer coisa. Significa compreender em que <strong>momento da carreira</strong> estamos e por que determinada experiência pode ser relevante naquele momento. Às vezes o retorno vem em dinheiro, enquanto em outras ocasiões aparece na forma de aprendizado, relacionamento, visibilidade ou abertura de caminhos que ainda não existiam.</p>
<p>Com o tempo, essa avaliação também muda. À medida que a carreira cresce, o tempo se torna mais disputado e é natural começar a selecionar melhor os convites. Aquilo que fazia muito sentido no início pode deixar de fazer alguns anos depois.</p>
<p>Também é importante lembrar que um compromisso raramente ocupa apenas o período marcado na agenda. Uma oficina de duas horas, por exemplo, envolve preparação, organização de materiais, comunicação, deslocamento e todo o tempo necessário para interromper e depois retomar o trabalho.</p>
<p>Com projetos, acontece algo semelhante. Antes de aceitar uma nova proposta, precisamos conhecer aquilo que já está em andamento, estimar quanto tempo o novo trabalho realmente exigirá e avaliar se existe espaço no cronograma. Sem esse cuidado, é muito fácil acumular compromissos e descobrir tarde demais que vários prazos decidiram chegar ao mesmo tempo.</p>
<p>Volta e meia eu recebo três pedidos de orçamento para o mesmo período. Nessas horas, preciso ter muita consciência sobre quanto tempo levo para executar cada projeto e se realmente conseguirei entregar tudo no prazo. Eu levo prazos muito a sério e, por isso, às vezes preciso abrir mão de trabalhos que gostaria muito de fazer, simplesmente porque sei que não conseguiria assumir tudo sem comprometer a qualidade do trabalho ou a entrega.</p>
<p>Por isso, planejamento não é apenas burocracia. Ele é uma maneira de proteger o próprio trabalho e a reputação.</p>
<p><strong>Contrato não é detalhe: é essencial</strong></p>
<p>Existe uma parte da carreira que muitos ilustradores prefeririam evitar: contratos, valores e negociações. Justamente por parecerem assuntos muito distantes do prazer de desenhar, podem acabar sendo tratados como algo secundário.</p>
<p>Um contrato, porém, não serve apenas para definir quanto será pago. Ele pode estabelecer prazos, formas de pagamento, alterações, direitos de uso, créditos, entregas e outras condições importantes. Algumas coisas que parecem detalhes podem fazer uma diferença enorme.</p>
<p>Tenho um exemplo muito recente disso. Depois de dezenas de livros ilustrados, quase tive um livro publicado sem o meu nome na capa.</p>
<p>Antes de assinar o contrato, eu mesma havia pedido que fosse incluída uma cláusula garantindo meu nome na capa. Algum tempo depois, quando a autora me enviou a arte final, percebi que meu nome não estava lá. Questionei e ela me explicou que a editora havia informado que normalmente não colocava o nome do ilustrador na capa.</p>
<p>Voltei ao contrato e enviei para eles exatamente a cláusula que havia pedido antes de começar o trabalho. A correção foi feita imediatamente.</p>
<p>Esse episódio reforça uma ideia que muita gente não prevê: <strong>o contrato não serve apenas para resolver problemas. Ele serve para pensar nos problemas antes que eles aconteçam.</strong></p>
<p>Negociar também faz parte da profissão. Às vezes são necessários vários e-mails, contrapropostas, ajustes de escopo e conversas até que as duas partes cheguem a um acordo. Isso não significa necessariamente conflito. Negociação é justamente o processo de encontrar condições viáveis para quem contrata e para quem realizará o trabalho.</p>
<p><strong>Saber desenhar bem não resolve tudo</strong></p>
<p>Talvez uma das coisas que mais surpreendam quem está começando seja perceber que é possível desenhar muito bem e, ainda assim, precisar desenvolver uma série de <strong>outras habilidades</strong> para construir uma carreira.</p>
<p>A técnica, composição e narrativa são fundamentais, mas também precisamos aprender a conversar com clientes, apresentar orçamentos, estabelecer limites, cumprir prazos, organizar projetos, compreender contratos, negociar e tomar decisões profissionais. São competências que normalmente não aparecem quando alguém imagina a vida de um ilustrador.</p>
<p>Ninguém precisa conhecer tudo isso no primeiro dia. Grande parte dessas habilidades se desenvolve com experiência, erros, observação e aprendizado. Quanto antes compreendermos que elas fazem parte da profissão, porém, menos vamos depender do improviso e mais tempo vamos conseguir preservar para criar.</p>
<p><strong>Fazer o próprio horário não significa ter tempo livre, mas é libertador</strong></p>
<p>Outra imagem comum sobre quem trabalha por conta própria é a de alguém que faz o próprio horário e, consequentemente, dispõe de muito tempo livre.</p>
<p>Existe liberdade, sem dúvida. Podemos organizar o dia de uma maneira que talvez não fosse possível em um emprego convencional, mas fazer o próprio horário também significa assumir a responsabilidade por fazer tudo caber dentro dele.</p>
<p>O trabalho não acontece separado da vida. Surgem compromissos familiares, problemas do dia a dia, alterações inesperadas e situações que são urgentes, enquanto os prazos dos projetos continuam existindo.</p>
<p>A grande diferença talvez não esteja em trabalhar menos, mas em ter maior autonomia para decidir quando trabalhar. Essa autonomia é uma das boas características da profissão, desde que venha acompanhada de organização.</p>
<p>Muitos livros que ilustrei exigiram que eu abrisse mão de algumas noites e finais de semana, e não fico ressentida com isso. Foram escolhas que fiz porque percebi que aquelas oportunidades eram importantes para a minha carreira. Não acredito que devamos viver trabalhando dessa maneira, mas também não acredito na ideia de que uma trajetória profissional se constrói sem nenhum sacrifício.</p>
<p>Há momentos em que uma oportunidade importante exige um esforço extra. E existe uma realidade simples no mercado: se você não puder ou não quiser assumir determinado projeto, ele provavelmente seguirá com outro profissional. Isso não significa aceitar tudo, mas aprender a reconhecer quais oportunidades justificam esse esforço.</p>
<p>Com o tempo, experiência, portfólio e reputação ampliam a nossa capacidade de escolha. Mas, principalmente no começo, é importante compreender que construir uma carreira envolve investimento de tempo, dedicação e, algumas vezes, renúncias.</p>
<p><strong>Nem todo o trabalho aparece na imagem pronta</strong></p>
<p>Existe ainda outra parte que quem olha de fora raramente percebe: ilustrar não começa no momento em que o lápis encosta no papel.</p>
<p>Antes da imagem final existem pesquisa, referências, estudos, rascunhos, testes e decisões sobre personagem, cenário, composição, cor e narrativa. Podemos passar horas trabalhando e terminar o dia sem uma única ilustração finalizada para mostrar, embora muito trabalho tenha sido realizado.</p>
<p>O leitor vê o resultado, enquanto o profissional precisa administrar todo o processo que tornou aquele resultado possível.</p>
<p><strong>Uma profissão que muda junto com o mundo</strong></p>
<p>Existe ainda uma característica que acompanha toda a carreira: continuar aprendendo.</p>
<p>O mercado muda, as ferramentas mudam, a maneira como os clientes encontram profissionais muda e aquilo que funcionava alguns anos atrás pode deixar de funcionar da mesma forma. A internet facilitou enormemente a possibilidade de divulgar o trabalho e trabalhar com pessoas que estão em outras cidades ou países, mas também colocou muitos outros profissionais lado a lado.</p>
<p>Quando eu comecei, a maioria das ilustrações eram feitas ainda com tinta e lápis de cor. Mas em pouquíssimo tempo, todo mundo migrou para o digital. Eu aprendi também, mas decidi permanecer com as tintas.</p>
<p>Agora estamos diante de outra transformação importante com a inteligência artificial. Não acredito que a melhor resposta seja fingir que ela não existe. Considero mais interessante compreender o que está acontecendo e aprender a conviver com essas mudanças.</p>
<p>Ao mesmo tempo, tenho percebido uma valorização renovada do artesanal e do feito à mão, algo particularmente interessante para quem, como eu, decidiu continuar trabalhando com técnicas tradicionais.</p>
<p>Talvez esse cenário atual torne ainda mais importante aquilo que existe no trabalho do ilustrador para além da simples produção de uma imagem: <strong>autoria, escolhas, narrativa, visão de mundo, repertório, relacionamento profissional e uma linguagem construída ao longo do tempo.</strong></p>
<p><strong>Uma profissão que continua encantando</strong></p>
<p>Algumas pessoas vão dizer: a IA vai acabar com tudo.</p>
<p>Mas eu acredito que as pessoas também vão querer saber quem está por trás de determinadas imagens, conhecer sua maneira de pensar, sua linguagem e seu processo. Certamente teremos mudanças, mas não acredito que o desejo por trabalhos autorais e reconhecíveis simplesmente desapareça.</p>
<p>E vendo o que está acontecendo no exterior, os ilustradores continuam no mercado, e muitos clientes não querem algo genérico. Querem algo com <strong>alma</strong>.</p>
<p>Quanto mais trabalho com ilustração, mais percebo como essa profissão é rica. Ela envolve criação, estratégia, relacionamento, pesquisa, aprendizado e uma quantidade enorme de experiências diferentes.</p>
<p>Talvez seja justamente isso que faz com que ela continue nos encantando.</p>
<p>Dificilmente existem dois dias exatamente iguais. Um projeto apresenta um personagem diferente, outro exige uma pesquisa que talvez nunca fizéssemos por conta própria, enquanto um terceiro nos leva a experimentar uma técnica, um cenário, uma composição ou uma solução que ainda não havíamos tentado.</p>
<p><strong>É uma profissão em que estamos constantemente aprendendo alguma coisa.</strong> Um livro pode nos levar a pesquisar uma época histórica, um lugar, um animal, uma profissão ou um universo completamente desconhecido. Quando aquele projeto termina, outro aparece trazendo questões completamente diferentes.</p>
<p><strong>É uma profissão empolgante, justamente porque rar</strong> <strong>amente enfrentamos o tédio ou uma rotina repetitiva.</strong></p>
<p>Cada projeto pode nos colocar diante de uma história diferente, de um universo novo e de pessoas que talvez nunca conhecêssemos de outra maneira. Estamos sempre pesquisando, aprendendo, imaginando, resolvendo problemas e criando alguma coisa que antes não existia.</p>
<p>Existe ainda algo que considero especial: <strong>o nosso trabalho permanece no tempo</strong>.</p>
<p>Uma ilustração pode se transformar em um livro que alguém guarda durante anos. Pode fazer parte da infância de uma criança, ajudar alguém a compreender uma mensagem, provocar uma emoção, despertar curiosidade, provocar uma mudança ou simplesmente criar uma memória afetiva.</p>
<p>Também existe a possibilidade de construir uma linguagem própria, colocar um pouco da nossa visão de mundo naquilo que fazemos e, depois de muitos anos, olhar para trás e perceber que deixamos um conjunto de imagens, livros e histórias que não existiriam daquela maneira sem nós.</p>
<p>A profissão ainda nos coloca em contato com escritores, editores, leitores, outros artistas e pessoas de lugares muito diferentes. Pode nos levar a feiras, projetos, pesquisas e experiências que dificilmente teríamos em uma rotina completamente previsível. Existem contratos, planejamento, orçamento, divulgação, prazos e muitas outras atividades que quase ninguém vê.</p>
<p>Tudo isso, no entanto, sustenta uma profissão que nos permite <strong>criar, aprender, impactar pessoas, construir uma trajetória e deixar um legado.</strong></p>
<p>Talvez seja justamente por isso que, depois de tantos anos, ela ainda consiga continuar nos surpreendendo. E você, que trabalha com ilustração ou está pensando em entrar nessa profissão, qual parte dessa vida profissional menos imaginava que faria parte do trabalho de um ilustrador?</p>
<p>Muito obrigada e uma <strong>ilustrada semana!</strong></p>]]></content:encoded></item>
<item><title>Quem sou eu e o que faço?</title><link>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/a/quem-sou-eu-e-o-que-faco</link><guid>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/a/quem-sou-eu-e-o-que-faco</guid><pubDate>Tue, 08 Sep 2026 22:28:08 GMT</pubDate><description>Sou artista visual e ilustradora, finalista do Prêmio Jabuti em Literatura Infantil. Assim como eu faço arte, você também pode.</description><content:encoded><![CDATA[<figure class="jr-fig a-centro"><img style="width:100%;display:block" src="/media/be87373dc1d56bf87423.webp" alt="Ilustração para cartão postal - Sabiá Books - Espanha"><figcaption class="jr-figcap">Ilustração para cartão postal - Sabiá Books - Espanha</figcaption></figure>
<p>Meu nome é Ingrid Osternack. Sou artista visual, ilustradora de livros infantis, autora e também professora.</p>
<p>Trabalho com livros infantis já faz alguns anos. Já ilustrei mais de 30 livros infantis e, em 2023, fui finalista do Prêmio Jabuti com A Princesa Naselda.</p>
<p>Minha formação passou por alguns lugares muito importantes para mim, como a <em>Accademia di Belle Arti di Venezia</em>, na Itália, <em>Fondazione Stepan Zavrel</em>, em Sármede, a <em>University of the Arts London</em> e curso de extensão em ilustração para livros infantis na <strong>UC Berkeley</strong> - Califórnia.</p>
<p>Mas minha história não aconteceu apenas entre livros, cursos e ateliês. Ela também foi construída com alunos.</p>
<p>Ao longo dos anos, acompanhei muita gente começando a desenhar, criando portfólios, desenvolvendo projetos e, em muitos casos, chegando à publicação. Também criei 10 livros de coletâneas, que reuniram dezenas de ilustradores em livros publicados e que acabaram se tornando uma parte muito impactante da minha trajetória. Vou falar mais sobre isso em outros artigos.</p>
<p>Este Journal nasce um pouco dessa vontade de abrir a porta do meu ateliê, registrar essa trajetória e o impacto que a arte e a ilustração tem tido na minha vida, dos leitores e de meus alunos.</p>
<p>Quero falar sobre ilustração, pintura, livros, processos criativos, materiais, bastidores, carreira, ensino, inteligência artificial e tudo aquilo que acontece deste que surge uma ideia até uma obra terminada ou um livro publicado.</p>
<p>Às vezes o resultado vai ser um artigo, às vezes uma imagem do que estou trabalhando na semana, ou um evento, uma descoberta, um esboço antigo ou até alguma coisa que pensei enquanto trabalhava.</p>
<p>Meu desejo não é produzir conteúdo apenas porque “é preciso produzir conteúdo”. Quero registrar aquilo que realmente faz parte da minha vida como artista e deixar um legado para quem, um dia, possa aproveitar o que veio antes.</p>
<p>Que esse Journal acabe sendo exatamente isso: um lugar para olhar por dentro do meu studio e dos meus bastidores, mas não apenas para ver o que eu faço, mas para entender um pouco melhor por que continuo fazendo, por que continuo trabalhando com arte e ilustração.</p>
<p>E, por fim, por que você também pode fazer o mesmo e criar a sua própria arte.:)</p>]]></content:encoded></item>
<item><title>Nota · 8 set</title><link>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/n/194-ha-poucos-dias-finalizei-mais-um-livro-ilustrado-e-entreguei</link><guid>https://journal.artifactory.com.br/ingridosternack/n/194-ha-poucos-dias-finalizei-mais-um-livro-ilustrado-e-entreguei</guid><pubDate>Tue, 08 Sep 2026 22:11:35 GMT</pubDate><description>Há poucos dias, finalizei mais um livro ilustrado e entreguei as ilustrações para a editora. Porém, eles ampliaram o número de páginas e me pediram mais uma ilustração. E aí está: a LAGAR-CHICA. A lagartixa de estimação da Charlotte. Em breve avisarei aqui sobre o lançamento do meu livro infantil. :)</description><content:encoded><![CDATA[<p>Há poucos dias, finalizei mais um livro ilustrado e entreguei as ilustrações para a editora. Porém, eles ampliaram o número de páginas e me pediram mais uma ilustração. E aí está: a LAGAR-CHICA. A lagartixa de estimação da Charlotte. Em breve avisarei aqui sobre o lançamento do meu livro infantil. :)</p>]]></content:encoded></item>
</channel></rss>