Entenda o risco hereditário, os testes genéticos e a importância para o tratamento
O desenvolvimento do câncer de ovário está relacionado a diversos fatores — idade, histórico reprodutivo, histórico familiar e fatores genéticos. Entre eles, as variantes patogênicas nos genes BRCA1 e BRCA2 estão entre os fatores genéticos mais claramente associados ao aumento do risco da doença.
Mas o que significa, na prática, ter uma "mutação no gene BRCA"? Significa que a pessoa necessariamente desenvolverá câncer de ovário? A resposta é mais complexa — e mais interessante — do que parece.
BRCA1 e BRCA2 não estão relacionados apenas à predisposição hereditária ao câncer de ovário. Eles também influenciam a capacidade de reparo do DNA das células tumorais, a avaliação prognóstica e a seleção de tratamentos-alvo, como os inibidores de PARP. Com a ampliação dos testes genéticos germinativos, dos testes de alterações somáticas no tumor e dos testes de deficiência de recombinação homóloga (HRD), a avaliação de risco e as estratégias de tratamento vêm evoluindo continuamente.
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O que são os genes BRCA1 e BRCA2?
BRCA1 e BRCA2 são genes supressores de tumores presentes normalmente no organismo, que participam do reparo de danos no DNA — em especial do processo de reparo por recombinação homóloga (homologous recombination repair, HRR).
Em condições normais, quando ocorre dano ao DNA celular, esses genes atuam para manter a estabilidade do genoma. Quando BRCA1 ou BRCA2 apresenta uma variante patogênica, essa capacidade de reparo diminui, e o acúmulo prolongado de danos genéticos pode aumentar a probabilidade de desenvolvimento de tumores malignos. O National Cancer Institute (NCI) destaca que variantes hereditárias prejudiciais em BRCA1 ou BRCA2 estão associadas a um aumento significativo do risco de câncer de mama e de ovário.
Vale notar: nem toda alteração encontrada nesses genes é uma variante patogênica. Testes clínicos podem identificar uma "variante de significado incerto" (VUS), que não deve, isoladamente, embasar cirurgias preventivas ou outras decisões terapêuticas importantes — como reforça a American Society of Clinical Oncology (ASCO).
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As mutações em BRCA aumentam o risco de câncer de ovário?
Sim. E de forma expressiva.
Segundo o NCI, mulheres com variantes prejudiciais em BRCA1 apresentam risco de desenvolver câncer de ovário ao longo da vida de aproximadamente 39% a 58%. Para variantes em BRCA2, esse risco é de cerca de 13% a 29% — significativamente maior do que o observado na população feminina em geral. (As estimativas variam entre estudos, conforme a população avaliada, o tempo de acompanhamento e a metodologia estatística.)
Olhando especificamente até os 70 anos, o risco cumulativo é de aproximadamente 39% para portadoras de BRCA1 e de 11% a 17% para portadoras de BRCA2.
Isso não significa uma sentença: mutações em BRCA1/2 não são uma "causa inevitável" do câncer de ovário, mas fatores que aumentam significativamente a probabilidade da doença. Da mesma forma, a ausência de mutação não elimina totalmente o risco.
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BRCA1 ou BRCA2: qual está mais associado ao câncer de ovário?
Ambos aumentam o risco, mas os estudos indicam, de modo geral, que o risco associado ao BRCA1 tende a ser maior do que o associado ao BRCA2 (≈39% vs. ≈11%–17% ao longo da vida, segundo o NCI).
Essa diferença também pode influenciar o aconselhamento genético: o momento ideal de estratégias de redução de risco pode variar entre portadoras de BRCA1 e BRCA2, e costuma ser definido considerando idade, planos reprodutivos e histórico pessoal e familiar.
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Por que as mutações em BRCA aumentam o risco?
A resposta está na deficiência de reparo do DNA.
BRCA1 e BRCA2 participam do reparo por recombinação homóloga. Quando apresentam variantes patogênicas, a capacidade das células de reparar quebras de dupla fita do DNA diminui, tornando o genoma mais instável. Com o acúmulo desses danos, algumas células podem adquirir características anormais de proliferação e sobrevivência, eventualmente formando um tumor.
É por isso que o status dos genes BRCA não serve apenas para avaliar risco — ele também pode influenciar a sensibilidade de um câncer de ovário já estabelecido a determinados medicamentos.
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Por que testar BRCA após o diagnóstico de câncer de ovário?
O teste de BRCA1/2 deixou de servir apenas para avaliar risco hereditário familiar. Hoje, cumpre dois papéis centrais:
Avaliação do risco hereditário. Uma variante patogênica germinativa em BRCA1/2 pode indicar a presença da síndrome hereditária de câncer de mama e ovário (HBOC) — o que abre espaço para aconselhamento genético e testes em cascata para familiares.
Apoio à decisão de tratamento. Como BRCA1/2 participam do reparo do DNA, uma alteração no tumor pode comprometer essa capacidade de reparo — característica que serve de base para determinados tratamentos-alvo. Por isso, o status de BRCA já é considerado um biomarcador importante em decisões de tratamento de precisão para o câncer de ovário.
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Como é feito o teste genético para BRCA?
O teste geralmente é realizado com sangue ou outra amostra biológica apropriada, e o método varia conforme o objetivo seja avaliar variantes germinativas ou alterações somáticas no tumor.
Para pessoas já diagnosticadas com câncer epitelial de ovário, a ASCO recomenda testes genéticos germinativos, incluindo BRCA1/2 e outros genes associados à predisposição hereditária. Quando não são identificadas variantes germinativas patogênicas, recomenda-se avaliar alterações somáticas diretamente no tumor.
Os testes multigênicos também vêm ganhando espaço: para quem tem histórico pessoal ou familiar relevante, outros genes além de BRCA1/2 podem ser considerados. As diretrizes da ASCO de 2024 recomendam considerar esse tipo de teste quando vários genes podem estar relacionados ao histórico do paciente — sempre com os resultados interpretados junto a aconselhamento genético.
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Teste BRCA positivo significa que a pessoa vai ter câncer de ovário?
Não. Esse é um dos equívocos mais comuns na interpretação do exame.
Uma variante patogênica em BRCA1 ou BRCA2 indica risco significativamente maior — não uma certeza. Como destaca o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), um resultado positivo aumenta o risco, mas não permite prever com certeza se o câncer vai ocorrer, nem em que idade.
Por isso, o manejo clínico de um resultado positivo deve considerar de forma integrada idade, histórico médico, planos reprodutivos e histórico familiar, sempre com orientação de aconselhamento genético.
Para portadoras de alto risco, a salpingo-ooforectomia redutora de risco (RRSO) é uma estratégia importante. O momento ideal depende do gene envolvido (BRCA1 ou BRCA2), dos planos reprodutivos e de características individuais — segundo a ACOG, em geral, pode ser considerada após a conclusão dos planos reprodutivos e ao atingir determinada faixa etária.
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O que realmente importa saber
Resumindo os avanços atuais em três pontos:
Risco elevado, mas desigual — variantes patogênicas em BRCA1/2 aumentam significativamente o risco de câncer de ovário, sendo o risco ligado ao BRCA1 geralmente maior do que o ligado ao BRCA2.
Além do risco hereditário — o status de BRCA também está ligado à capacidade de reparo do DNA do tumor e à sensibilidade a inibidores de PARP, tornando-se biomarcador central no tratamento de precisão.
BRCA não é tudo — com a evolução dos testes multigênicos e de HRD, a avaliação de risco e o tratamento de precisão caminham para uma abordagem molecular mais ampla, além do BRCA isolado.
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Conclusão
As variantes patogênicas em BRCA1 e BRCA2 estão claramente associadas a um risco maior de câncer de ovário — mas um resultado "BRCA positivo" não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá a doença, nem que precisará obrigatoriamente de um tratamento específico. Para quem ainda não tem câncer, o teste ajuda a avaliar risco hereditário e orientar estratégias de manejo; para pacientes já diagnosticadas, os testes moleculares de BRCA e HRD contribuem para definir o tratamento mais adequado.
À medida que os testes genéticos, os testes multigênicos e as terapias dirigidas aos mecanismos de reparo do DNA continuam evoluindo, o diagnóstico e o tratamento do câncer de ovário associado a BRCA avançam de uma avaliação tradicional de risco para um manejo cada vez mais preciso e individualizado. Para quem tem histórico pessoal ou familiar relevante, buscar aconselhamento genético com profissionais qualificados é sempre mais seguro do que interpretar isoladamente o resultado de um teste genético.
Conteúdo produzido pela Dengyuedistributor, plataforma dedicada a medicamentos e informações médicas, com foco em tumores ginecológicos, medicina de precisão e medicamentos inovadores.